sexta-feira, 20 de março de 2026

DURANTE A II GUERRA MUNDIAL| o que tem uma Sapataria do Chiado a ver com o Banco de Portugal ?

 


Excerto do artigo de Alexandra Machado

«(...) O Banco de Portugal temia que um bombardeamento destruísse as suas reservas, colocando em causa a economia nacional. Era preciso ter um sítio seguro, secreto, para garantir a sobrevivência financeira do país. “Um local escondido à vista de todos”, conta a instituição financeira num vídeo divulgado na visita virtual ao arquivo, lançada esta quinta-feira, 19 de março. Cláudia Pinto, uma das cinco pessoas que trabalham no arquivo do Banco de Portugal, guia-nos por essa história. Durante meses, uma loja — a Sapataria Atlas que estava junto da companhia ferroviária dos Wagons-Lits, perto da Joalharia do Carmo e da Luvaria Ulisses — na Rua do Carmo, em Lisboa, foi tornada cofre subterrâneo, com paredes reforçadas, e no qual, no Chiado, o Banco de Portugal “escondeu milhões de notas prontas a emitir, papel-moeda, maquinaria para o fabrico de notas e o arquivo considerado essencial para a continuidade da sua atividade”. A Sapataria Alves sofreu obras de remodelação que nem a Câmara Municipal de Lisboa sabia a razão. “Um mês e três toneladas de ferro depois, a insuspeita Sapataria Atlas transformar-se-ia numa das mais importantes casas-fortes do Banco de Portugal”, lê-se nos arquivos do Banco de Portugal que, no entanto, não conseguiu contabilizar o montante que aí foi escondido, mas assumindo que tinha capacidade para 18 milhões de notas. “Até à data não foi encontrada informação adicional no arquivo. Compreensivelmente era um assunto de algum segredo, pelo que não deve ter ficado muito registo”, diz ao Observador fonte oficial do banco central, assumindo a instituição que “existem ainda poucas evidências acerca das circunstâncias que levaram o Banco, em plena Segunda Guerra Mundial, a arrendar o 87 D da Rua do Carmo”. A loja era a “reserva secreta” que garantiria a continuidade do país em caso de bombardeamento, imaginando-se, então, que as ruínas do Convento do Carmo cairiam em cima do imóvel e, assim, os escombros salvariam o “tesouro”. Não aconteceu. O Banco de Portugal continuou a gerir a loja, que lhe tinha sido cedida pelo Estado para esse efeito a 13 de abril de 1944, por mais 15 anos, até 21 de julho de 1978. ? A loja que serviu de caixa-forte do Banco de Portugal na Segunda Guerra Mundial Hoje a caixa-forte do Banco de Portugal está no Carregado, onde foi instalada em 1999. E o 87 D da Rua do Carmo alberga uma loja de decoração. Esta é uma das histórias que se “escondem” no arquivo do Banco de Portugal, um arquivo que pode ser consultado por quem o solicitar e que também tem uma porta digital. A partir desta quinta-feira tem uma visita virtual. 180 anos de História e muitas histórias A visita ao arquivo permite-nos encontrar a história do banco central, mas muitas outras se escondem nos volumes guardados pelo Banco de Portugal, organismo criado por decreto régio a 19 de novembro de 1846, faz este ano 180 anos. Foi nesse decreto que se fusionou o Banco de Lisboa e a Companhia Confiança Nacional. Nascia o Banco de Portugal com o privilégio de emitir notas, que até então era da responsabilidade do Banco de Lisboa, que, em contrapartida, emprestou ao Estado dois mil contos de réis para amortizar o papel-moeda em circulação. Portugal vivia, no entanto, em 1846 momentos conturbados. As revoltas liberais contra o Governo autoritário de Costa Cabral acabariam por fazer cair o Governo, queda embalada pela revolta da Maria da Fonte. Assumiu o Executivo o Duque de Palmela, mas após um golpe de estado palaciano, a “Emboscada” da rainha D. Maria II, também esse governo caiu. Durante este período quem detinha notas correu a trocá-las por prata, até que a rainha suspende o reembolso das notas. Iniciava-se a guerra civil designada Patuleia, que agrava a situação. Além de divisivas, estas disputas eram onerosas e o Estado não conseguiu cumprir com os empréstimos feitos. A crise financeira levou, então, à fusão do Banco de Lisboa (constituído a 7 de junho de 1824) e da Companhia Confiança Nacional (criada a 25 de setembro de 1844) — a história de ambos está no arquivo do Banco de Portugal, em 35 volumes. Criou-se o Banco de Portugal que, até 1887, partilhava a emissão de notas com outras entidades. Só em 1888 se tornou o único emissor. (...)».

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«Na visita virtual, é possível explorar os depósitos do Arquivo Histórico do Banco de Portugal, conhecer espaços relacionados com a sua história, descobrir curiosidades sobre o acervo e consultar diretamente os documentos.
Também são partilhadas histórias sobre o Banco de Portugal, contadas em vídeo pelos arquivistas do Banco. Os visitantes podem, assim, ficar a conhecer episódios marcantes dos 180 anos de história da instituição: o nascimento do Banco, a criação das agências e delegações regionais, o surgimento das notas, as primeiras mulheres ao serviço do Banco, o leilão das joias da rainha D. Maria Pia, o caso Alves Reis ou os milhões guardados no Chiado durante a Segunda Guerra Mundial». Saiba mais.
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