«Apanhei a
história na Folha de São Paulo e, depois, no Correio Braziliense. Mas em
qualquer dessas janelas me foi acrescentado um detalhe: o caso tinha sido
pescado no poço sem fundo do TikTok, onde rapidamente "viralizou".
Tal informação arrasta em mim uma urticária que não será letal. Mas a história
é tão boa que não resisto a dar-lhe vento na crónica, mesmo se chovo no molhado
do já sabido, olha este.
A história
trata do espanto que Monalisa, a cidadã Monalisa Melo, sentiu ao descobrir que
seu filho jogava à bola, frequentemente, com uns cavalheiros no relvado do
condomínio e que um desses cavalheiros era alguém a quem todos sublinhavam uma
leve vénia no trato, um homem antigo, mais lento na profundidade, mas tão mais
profundo, com tão bom toque de bola e com um sorriso tão largo que se confundia
com a chamada visão de jogo e a quem todos tratavam por "seu Chico".
O filho teria percebido, pela cortesia geral, que "seu Chico" ganhara
uma fama proveniente de outros palcos distantes do tapete de relva onde ainda
se firmava nas canetas tentando o "chute a gol / com precisão /de flecha e
folha seca".
O filho de Monalisa Melo desconfiara que "seu Chico" transcendia
o nome e a mesura. Sua grandeza teria de ser maior. Monalisa foi assistir a um
dos jogos lá no condomínio e descobriu que aquele a quem o filho se referia
como "seu Chico" era, afinal, Chico Buarque. Eis o poder de um nome:
o rapaz viu, em todo o esplendor, a "paralela do impossível". Como se
tivesse sido tomado pelo "sentimento diagonal/ do homem-gol", ele
teve a revelação de quem não sabia que sabia. Chico é tão vasto, tão admirável,
que já tínhamos sabido dele no fundo de nós mesmos, tal como ele, Chico, seu
Chico, soube de Canhoteiro e de Mané antes de saber cantar "uma canção
capenga". Sabias, tu, de Canhoteiro, o admirável Canhoteiro a quem Pelé
venerava e a quem chamavam "Garrincha da ponta esquerda"?
Fico a imaginar seu Chico fazendo uma canção para Monalisa, mãe do rapaz
que levou as mãos à cabeça como se tivesse falhado um golo de baliza aberta,
perguntando-se diante das câmaras: "Como é que eu joguei à bola com esse
cara?". Não lhe sabia o rapaz a magia da voz, o poder criador da música,
apenas o samba que lhe nascia nos pés».


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